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Está dando merda, presidente


Cid Benjamin

Artistas são, em geral, pessoas de sensibilidade aguçada. Isto faz com que enxerguem mais longe do que a maioria. Em certo momento, por exemplo, Chico Buarque fazendo graça defendeu a criação do Ministério do Vai Dar Merda. A pasta teria como função examinar as medidas do governo nas mais diversas áreas para advertir o presidente quando determinada decisão fosse um tiro no pé.


Se essa pasta existisse e estivesse funcionando, ela teria muito o que fazer no governo Bolsonaro. Por exemplo, diante da entrega do Ministério da Saúde aos bandidos do Centrão e a militares despreparados e não exatamente honestos, ela advertiria: “Presidente: vai dar merda”.



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O mesmo aconteceria diante da ideia de promover aquela micareta em que os carros alegóricos foram 150 blindados da Marinha caindo aos pedaços e soltando fumaça preta. O objetivo declarado era entregar um convite a Bolsonaro. O objetivo real era intimidar os deputados que, logo depois, rejeitariam a proposta de retomada do voto impresso, o caminho bolsonariano para um golpe.


Faltou a advertência: “Vai dar merda”.


O espetáculo foi grotesco. Lembrou aqueles desfiles carnavalescos de antigamente, os chamados corsos. Deve ser dito, porém, que não se viu alguém fantasiado de general da banda, como acontecia naquelas festividades. Ou de Rei Momo. Não houve tampouco a guerra de urina.


Felizmente.


De qualquer forma, de uma coisa não se pode ter qualquer dúvida: deu merda.

O ensaio de aprovação do chamado distritão, uma verdadeira excrescência, foi outra iniciativa lamentável da semana. Daria uma merda descomunal se acabasse aprovado. Era uma proposta tão sem pé nem cabeça que se deve acreditar que não era para valer. Talvez fosse o que no vocabulário de política de chama de “bode”

.

A origem da expressão teria sido o conselho do padre a um fiel que reclamava que sua vida estava muito difícil. O religioso sugeriu, então, que durante uns dias ele pusesse dentro de casa, na sala, um bode. Passado esse tempo, voltou o fiel: “Padre, agora mesmo que a minha vida se tornou um inferno. Não sei o que faço”. “Tire o bode, meu filho. Você vai ver como a sua vida vai melhorar”, aconselhou o religioso.


Imagino que com o distritão – um verdadeiro “bode” – entrou em pauta mas seria mesmo retirado depois. O objetivo era cobrar um preço por isso: a volta das coligações proporcionais. Afinal, elas impedem qualquer sistema partidário minimamente decente, e garantem a sobrevivência das legendas de aluguel (além de outras que não são de aluguel, mas se preocupam antes de mais nada em assegurar a sua sobrevivência).


A liberdade de organização partidária deve ser ampla e a criação de partidos deve ser livre. Há países com um grande número de partidos e isso não traz prejuízo para a democracia. Mas eles devem caminhar pelas próprias pernas. Tem sentido a existência de legendas que só existem para embolsar dinheiro público e funcionar balcões de negócios, a maioria deles com donos? A existência dos mais de 50 partidos, como ocorre hoje no Brasil, fortalece a democracia? Que eles sejam criados, é problema de quem os cria ou se identifica com eles. Que sejam instrumentos de picaretagem com recursos públicos passa a ser problema da sociedade.



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Não é segredo que muita gente enriquece com os fundos eleitorais e partidários e, ainda, vendendo tempo de propaganda no rádio e na TV. O que permite a existência dessas legendas de aluguel são as coligações nas eleições proporcionais, pois elas não têm representatividade e não alcançam quocientes eleitorais para eleger parlamentares. Essas coligações atropelam o espírito das eleições proporcionais, nas quais cada partido apresenta seus candidatos e ocupa um número de cargos proporcional à sua representatividade.


O fato é que, nesta semana, foi evitada uma merda maior (o distritão), mas se retrocedeu a uma merda menor que tinha sido superada (a sustentação das legendas de aluguel).

Por fim, me veio à cabeça uma história – que não sei se é real – mas corre no mundo do jornalismo. Quando da rendição da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, no dia 7 de maio de 1945, um pequeno jornal do interior do Nordeste brasileiro saiu com a seguinte manchete: “Hitler: Nós avisamos”.


Pois, diante da destruição nacional implementada pelo atual governo, alguém próximo ao presidente poderia um dia lhe dizer: “Bolsonaro, nós avisamos que ia dar merda”.


Cid Benjamin é jornalista.



 

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