EMANAÇÕES...


Leo Viana

Quase ninguém deu atenção ao fato quando o mau cheiro começou. Sem muita precisão, há quem diga que foi em 2013. Há quem situe a origem em 2016. Há até quem diga que fede há muito mais tempo. Ao menos aqui no Brasil.


Nas ruas as pessoas tentavam, discretamente, identificar a origem em si mesmas, fazendo estranhas coreografias para aproximar seus narizes de suas próprias axilas ou bafejando nas mãos e as cheirando em seguida, em busca de uma resposta. Mas não, a origem não estava embaixo dos braços ou dentro das bocas.


À medida que o odor se intensificava, novos movimentos podiam ser percebidos. Passou a ser estranhamente comum ver pessoas sentadas no meio fio, ou em algum banco de praça, a retirar os sapatos e cheirá-los. Apesar do novo hábito adquirido, no entanto, – e era possível ver distintas senhoras, homens jovens ou velhos de terno, jovens estudantes, pobres, ricos e cidadãos de todas as raças e orientações sexuais com o sapato no nariz – ninguém identificava os próprios pés como origem do incômodo fedor.