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EMANAÇÕES...


Leo Viana

Quase ninguém deu atenção ao fato quando o mau cheiro começou. Sem muita precisão, há quem diga que foi em 2013. Há quem situe a origem em 2016. Há até quem diga que fede há muito mais tempo. Ao menos aqui no Brasil.


Nas ruas as pessoas tentavam, discretamente, identificar a origem em si mesmas, fazendo estranhas coreografias para aproximar seus narizes de suas próprias axilas ou bafejando nas mãos e as cheirando em seguida, em busca de uma resposta. Mas não, a origem não estava embaixo dos braços ou dentro das bocas.


À medida que o odor se intensificava, novos movimentos podiam ser percebidos. Passou a ser estranhamente comum ver pessoas sentadas no meio fio, ou em algum banco de praça, a retirar os sapatos e cheirá-los. Apesar do novo hábito adquirido, no entanto, – e era possível ver distintas senhoras, homens jovens ou velhos de terno, jovens estudantes, pobres, ricos e cidadãos de todas as raças e orientações sexuais com o sapato no nariz – ninguém identificava os próprios pés como origem do incômodo fedor.


Roda de Samba, ouça no Youtube.


Pouco a pouco, todos começaram a desconfiar uns dos outros. Além do autoexame, com o fim de identificar a origem do bodum, as pessoas passaram a fiscalizar as outras. E cheiravam-se, trocando inclusive acusações. O cheiro vinha de toda parte, incomodava cada vez mais, mas sua dispersão, sua fluidez, dificultava a identificação de uma origem primal.


Não se sabia ao certo onde foi sentido pela primeira vez, entretanto, era notável o grau de incômodo a que rapidamente se chegou. Relatos constantes de incidentes, com gente checando as roupas íntimas de outrem, fiscalizando indiscretamente a higiene pessoal mais recôndita. Ligas informais de fiscalização foram formadas. Algumas destinadas a tentar minimizar o cheiro, outras para negá-lo, tarefa difícil, já que as narinas de todos eram atingidas igualmente. O mal estar era geral.


Anúncios foram multiplicados em sites e redes sociais, com a convocação de pessoas incomodadas e voluntárias, a fim de reforçar iniciativas visassem a identificar e punir os responsáveis por aquela onda malcheirosa, que ameaçava a todos, indistintamente.

Anúncios contrários também foram agressivamente publicados, negando a existência do cheiro – contra todas as evidências - e acusando o outro lado de criar fatos ou mesmo, pontualmente, espalhar carniça para semear o caos. E o fedor.


Um serviço privado de investigação – o poder público buscava se isentar - conseguiu uma pista. Nas áreas mais ricas do Brasil, apesar do uso de atenuantes de melhor qualidade, perfumes franceses e italianos, produtos químicos neutralizadores de odor e sistemas poderosos de exaustão mecânica, o cheiro persistia e se intensificava mais. Ao sabor do vento – as regiões mais ricas ficam em locais normalmente bem ventilados – o putrefato olor se espalhava pelas regiões mais pobres e médias. Mas, para surpresa dos investigadores, uma vez contaminada, cada região começava a funcionar também como fonte, espalhando, a partir dali, os amaldiçoados eflúvios, em maior ou menor intensidade.


Outra frente de investigação localizou uma forte nuvem do infernal aroma vindo do interior do país. Ao que parece, havia uma forte interação entre a nuvem e áreas sob o cultivo de monoculturas de exportação, avançando perigosa e impiedosamente sobre os narizes de índios, quilombolas, agricultores familiares das proximidades.


Nos grandes centros, em pesquisa simultaneamente conduzida, templos pentecostais, instalações militares, bancos e condomínios de classe média foram igualmente identificados como fontes da fragrância apodrecida. Tribunais, cartórios e varas também foram listados como fonte das pútridas emanações.


Cientistas foram convocados e puseram em funcionamento poderosos equipamentos, capazes de identificar os componentes dos gases em suspensão no ar, com o objetivo de antecipar a descoberta e produção de algum neutralizador suficientemente eficiente para tornar o ar novamente respirável, mas não houve sucesso. O cheiro se alastrava. As pessoas tentavam, por conta própria, identificar a natureza do odor. Ele se situava em algum ponto entre os gases intestinais (expelidos por baixo), os estomacais (expelidos por cima), as axilas revoltas, o chulé de pés úmidos em tênis de couro, o cheiro de curtume (quem viveu perto conhece...), a carne podre, a mortandade de peixes, grandes volumes de batata apodrecendo, restos da indústria de alimentos, humanos abandonados, fezes frescas de humanos, gatos e cachorros. Um satânico mix.




Os urubus se alegraram e cobriram os céus. Moscas e suas larvas eram vistas em todos os pontos, alguns improváveis, como os centros de mídia, tidos como locais isolados e assépticos pelo senso comum. Ascéticos, até. Centros esportivos e casas parlamentares, essas últimas sem despertar grande comoção ou surpresa, também emanavam eflúvios fedorentos.

Mas a natureza é sábia.


Vindo não se sabe de onde, um vírus quase indestrutível começou a contaminar muita gente e, num golpe de mestre, lhes suprimir o olfato. Num primeiro momento, foi como um alívio. Mas o vírus faria pior e levaria, para sempre, muitas vidas, algumas mais e outras menos preocupadas com aquele cheiro ruim.


Curiosamente, com o passar do tempo, por muitas vezes, o cheiro foi amenizado, ainda que não se tenha encontrado uma solução definitiva. Em ondas de intensidade variável, o vírus mostrou toda a sua capacidade de bloquear, ao menos parcialmente, a suprema inhaca que cobria grande parte da Terra e o Brasil de maneira particular.


A cada dia, não se sabe exatamente se pela perda da capacidade olfativa de parte da população, pela familiarização com o incômodo ou por alguma forma de compensação pecuniária, foi estabelecida uma convivência que, se não é pacífica, ao menos se esforça para parecer inodora.


O fato, contudo, é que o futum, que há quem diga estar perto do fim, parece estar cada vez mais intenso. Eu mesmo soube de gente que precisou ir à orla do Rio de Janeiro por esses dias e, se não era baleia morta ou poluição (não vi nem soube pela imprensa de eventos extraordinários do tipo), há pelo menos dois trechos da Barra que estão insuportáveis. Um é perto de um quiosque. O outro, que fede há mais tempo, é um conhecido condomínio de casas...

Como tenho nariz sensível - e ainda há vírus por aí - eu raramente tiro a máscara.


Rio de Janeiro, fevereiro de 2022.



 

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Cultura!

Leo Viana, Gustavo Almeida, Tuninho Galante.



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