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DOIS PERSONAGENS




Ela era o que os homens - seres em geral limitados e ignorantes, com menor capacidade de comunicação nas línguas conhecidas e cujos pensamentos, via de regra, são regidos por instintos muito básicos, indignos da racionalidade – chamavam de “mulherão”. A terminologia variava com o tempo, claro, mas ela teria sido um “pedaço de mau caminho”, um “avião”, a “bonitona” do Geraldo Pereira ou a “gostosona” atemporal.


Mas não era só isso. Era muito mais! No frescor dos 30 anos, nem de longe parecia – à primeira vista – com a mulher do livro do Balzac. Afinal, ter trinta anos no século XIX eram outros quinhentos. Era também uma intelectual e professora universitária reconhecida em sua área de atuação, com passagem por importantes universidades do Brasil e do exterior, fluência em pelo menos quatro línguas e uma simpatia, um sorriso, uma presença de espírito e uma, não sei ao certo, uma luminosidade, isso, uma luminosidade, que abriam espaços em qualquer lugar.


Bebia educadamente, frequentava botequins e baladas com parcimônia, mas ia. Não era exatamente atleta, corria na praia, mas detestava academia, aquelas séries repetidas. Tinha a turma da praia, tinha a turma do bar, tinha a turma da universidade. Em todas as turmas, o mistério sobre a vida pessoal. Nunca fez a menor questão de enumerar conquistas ou decepções amorosas. Chegava a causar preocupação nas amigas e um certo furor nos amigos (ah, os homens...), que apesar disso jamais tiveram coragem, amigos que eram, de incomodar a Nininha com aquelas cantadas bestas, que normalmente independem do grau de escolaridade do emissor diante de uma moça que achem bonita.

Até que o Paulinho apareceu. O Paulinho parecia a antítese do intelectual, mas era um. Quarenta anos, cara de garoto, apesar do pós-doutorado no Japão e da participação – discreta, ele mesmo disse - numa equipe americana que abiscoitou um Nobel. Cabelo revolto, solteiro, no limite entre bon vivant e workaholic. Bom de prosa e de copo, livros publicados, vontade de morar no Rio.


 

Café com Música, escuta aqui!

 

O Paulinho, curiosamente, viu a Nininha num botequim. Tinha vindo ao Rio pra participar de uma banca de doutorado, mas aproveitou pra ficar uns cinco dias e percorrer umas rodas de samba. Gostava muito e o tempo vivido no exterior, antes de se fixar em São Paulo, tinha sido de uma abstinência dolorosa. Em São Paulo trabalhava muito, até frequentava uma roda ou outra, mas sempre que vinha ao Rio dava um jeito de esticar e tomar umas cervejas ao som de clássicos do Elton Medeiros, do Paulinho da Viola, do Luiz Carlos da Vila. Em algumas ocasiões, teve a sorte de até esbarrar com figuras míticas assim na mesa ao lado, ou cantando despretensiosamente. Ele se sentia no céu quando isso acontecia. Mas céu mesmo foi o momento em que pôs os olhos na Nininha.


A morena, de pé num canto do boteco, cantava animadamente, e lindamente, um samba de Dona Ivone Lara, como se não houvesse amanhã. Mas quem disse que eu te esqueeeeço...

Dali em diante, as atenções do Paulinho se desviaram definitivamente do samba e se fixaram na Nininha. Ele mesmo não conseguia entender o magnetismo que a figura exercia. E algo no íntimo o fez entender que não seria fácil uma aproximação. Deixou a mesa e se esgueirou entre as pessoas pra ficar perto dela. Ela, obviamente, nem tchuns. Não só ignorou como saiu dali pra pedir mais uma cervejinha, o que frustrou momentaneamente qualquer investida do Paulinho. A tristeza durou pouco, porque a Nininha voltou em poucos minutos e tornou a irradiar sua luz ali, cantando em seu cantinho.


Entre ofuscado e surpreso, Paulinho forçou a aproximação com um daqueles comentários que não dizem nada, do tipo “legal aqui, né?”. Foi solenemente desprezado, claro, mas não era de desistir fácil.

Nininha tinha ouvido o que ele disse. Só não tinha acreditado, daí o desprezo. “legal aqui, né?” era de uma pobreza de espírito lamentável. Não fosse legal e seria injustificável permanecer ali, num calor senegalês ouvindo sambas que, apesar de lindos, podiam ser ouvidos em condição mais favorável.


 

Violões e violonistas, ouça aqui!

 

Conhecia, ao menos de vista, todo mundo ali. Frequentava havia tempos o mesmo boteco, ouvia volta e meia sambas repetidos, mas sempre lindos. Não era assídua, tinha muitas ocupações, mas sempre que podia estava lá. Curiosamente, neste dia, marcara com umas amigas que não apareceram. Notou que o Paulinho não fazia parte do elenco frequente. Botequins, com o tempo, criam confrarias informais. As pessoas passam a repetir o mesmo botequim por causa da temperatura da cerveja, pela música, pelas outras pessoas, por um drinque diferente, por um salgadinho muito bom, essas coisas. E quando você entrar num botequim onde nunca esteve, certamente olhos atentos estarão acompanhando seus movimentos e reconhecendo você – ou não – como um potencial membro da confraria.

Paulinho também sabia disso. Mais botequista que Nininha, tinha notícia daquele samba, mas não tinha tido chance de conhecer ainda. E agora, além da qualidade da música, da cerveja gelada e da alegria do povo, tinha ao alcance dos olhos aquele raio de luz, aquela aparição divina, aquele ser transcendental.


Mas Paulinho, ansioso demais, bebeu além da conta. Não que estivesse em lugar inapropriado pra fazê-lo. Botequins são geralmente espaços solidários. Não são raros os casos de entrega de bêbado em domicílio ou devolução de objetos extraviados depois de porres passionais, os piores. Mas o Paulinho, depois de pisar várias vezes no pé da Nininha em malsucedidas e desastradas tentativas de aproximação, trocou a cerveja por doses de cachaças mineiras variadas e perdeu o prumo. Pra piorar, não estava na cidade certa e, bêbado, nem lembrava nome e endereço do hotel em que estava hospedado. Perdeu de uma vez a chance de entrar pra feliz confraria daquele botequim, onde gente legal cantava sambas lindos, que ele adorava.


Quando o Paulinho perdeu os sentidos e a razão, um leve desapontamento chegou a passar pelo feed mental da Nininha. Ela tinha notado, logo no início, que ele conhecia bem as letras dos sambas. Parecia interessante mas, coitado, era fraco.

Homens...


Rio de Janeiro, dezembro de 2021.

 

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