Desde que Tudo Aconteceu. Crônicas escolhidas, de Marceu Vieira

Desde que tudo isso começou


Desde que tudo isso começou, um medo infantil do invisível, um sobressalto renitente, um monte de saudades misturadas, uma sensação estranha de espera, o insondável do silêncio na solidão, tantos sentimentos difíceis de descrever teimavam no peito, represados, até transbordarem na manhã da última segunda-feira, 4 de maio deste 2020, com a notícia da morte do Aldir.

O balde de mágoas já vinha enchendo, enchendo, enchendo, desde as mortes do Daniel Azulay, do Moraes Moreira, do Rubem Fonseca, do Garcia-Roza, do Tantinho, do marido da prima, da vizinha da mãe, do médico primo do amigo… e, aí, veio a notícia do Aldir – e o balde transbordou.

Aldir Blanc Mendes, 73 anos, carioca do Estácio, ex-psiquiatra, músico, compositor, poeta que me provocava “desastres sinistros de amor”, como o personagem do samba-canção dele e do Maurício Tapajós, morreu pra ficar. Era um cara maior no talento e na decência, superlativo de homem bom, sujeito de afetos profundos e rascantes, camarada sublime como o Álvaro de Campos, heterônimo do Fernando Pessoa e, talvez, a encarnação passada dele, Aldir. O medo, o sobressalto, as saudades misturadas, a sensação de espera no insondável do silêncio, todos esses sentimentos represados derramaram na quinquagésima manhã da minha quarentena solitária em São Paulo, a uns 500 quilômetros da Tiju