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Dedé, de Hélio Paulo Ferraz

Helio Paulo Ferraz, para CRIATIVOS.


Hélio Paulo Ferraz, coleção do autor
Hélio Paulo Ferraz, coleção do autor

“A gente morre é para provar que viveu.”

João Guimarães Rosa (Discurso de posse na ABL, três dias antes de morrer)

DEPOIMENTO COLHIDO NA CELA DA POLÍCIA FEDERAL RJ, PELO PSIQUIATRA CRIMINOLOGISTA.

Primeiras reflexões – 21/03 – TERÇA FEIRA – madrugada

“O que importa é que vou viver o deserto da existência sem a perspectiva de sua presença.

Eu queria a verdade, mas a verdade, foi minha condenação.


Perdê-la, era o meu destino.


Acho que me sentia ameaçado pela sua proximidade com alguém mais jovem do que eu, um atleta talentoso, famoso, e que devia encantar Dedé. Eu mesmo chamei a atenção dela, transpareci o meu receio, pois me comparei com quem eu admirava de muitas formas e, portanto, temia.


Tudo vem agora ao meu pensamento como um quebra-cabeças, as peças começam a se encaixar, tomar forma. De alguma maneira, abriu-se uma fresta no universo do meu inconsciente e começo a desaguar a lembrança de todos os acontecimentos.”

Lembrança dos primeiros acontecimentos, ainda na terça feira, 21/03, tarde.

Quem me chamou a atenção, inicialmente, foi Tiago, meu colega do colégio, amigo de toda a vida. Quando a gente está apaixonado, não enxerga nada, não quer enxergar.... “o corno é sempre o último, a saber”... E a Dedé com aquela sensualidade saindo pelos poros, todo aquele encanto, seu riso contagiante, deixava todo mundo louco.


Como ela também gostava de futebol, sempre íamos aos jogos nos fins de semana. Depois do estádio ela gostava que eu a acompanhasse até a Mangueira.

Bem, o Almir “Fenomenal” foi ser nosso vizinho, comprou a cobertura do meu prédio.

Um dia, Tiago me disse que ela tinha dado uma carona para o Almir, depois de um FLA/FLU - eu estava em Miami. Tiago estava conversando na entrada do estacionamento do portão 18, quando os viu sair no carro dela.


Dedé foi ao ensaio da Mangueira. Almir parece que também esteve lá. Eu não achei nada demais, embora ela não tivesse me dito isso, o que era estranho, pois falava tudo, falava muito, sempre tinha uma história para contar.


Recordo que Tiago ainda me disse: “cuidado, esse Almir tá a fim de chegar na Dedé”.

Na verdade, inicialmente, eu fiquei foi muito puto com o Tiago. Mas depois aquilo me voltou e eu tentei assuntar com ela, indiretamente. Ela não entendeu... ou fez que não.


Bem, no outro fim de semana, teve Flamengo e Boca, final da Libertadores. O Flamengo terminou o primeiro tempo perdendo de 2 x 0, depois empatou aos 40’ do 2º tempo. Já nos acréscimos o Almir fez um gol de cabeça, deitado no chão encharcado da chuva, 3 x 2 e acabou o jogo. Ficou todo mundo maluco, saímos dali para a Ataulfo de Paiva, aquela festa.


Eu já nem lembrava mais da estória da carona. Mas ele estava lá, claro, era o centro de tudo e quando já estávamos dentro do “Le Coin”, não sei por que, eu comecei a ficar meio grilado. Ele se sentou na nossa mesa, ao lado de Dedé, na cabeceira. Quando fui ao banheiro, o Tiago falou no meu ouvido: “esse cara... a Dedé tá dando mole pra ele, fica esperto”.


Na volta, olhei para eles na mesa e tive a impressão, quase nítida, de que ele estava com a mão na coxa dela. Bom ..., no meio daquela confusão eu podia estar apenas sugestionado, e quando finalmente consegui me sentar de novo, esgueirando-me entre abraços e saudações, ele já tinha se levantado.)

Retomamos as revelações, quarta feira – 22/03, às 23 h - As evidências

Passei a evitar o Tiago para não enlouquecer,... Eu não queria mais pensar no que ele tinha dito. Até que, um dia, quando estava fazendo uma sesta no sofá do meu escritório, Tiago entra transtornado, com uma fita de gravador e a transcrição dela em suas mãos.

“Agora, vê se acredita! Você é um grande empresário, um intelectual, não pode ser feito de babaca.”


Na verdade, Tiago me jogou no chão com essa história que na realidade... eu preferia nunca ter ouvido. Recordo perfeitamente, palavra por palavra, o que Dedé dizia, ao telefone, embora eu precisasse ler a transcrição, pois de fato a gravação era muito ruim, difícil de ouvir. Ela contava para Emy, namorada de Tiago e melhor amiga dela, seu primeiro, digamos ... “encontro”, com Almir, na festa de Emy que mora na cobertura do prédio ao lado.


- Amiga, foi muito legal você ter falado pra ele subir na sua sala íntima pra conversar comigo. Valeu!

- Valeu não, garota, agora me conta tudo, quero todos os detalhes!

- Bem, ele tava de pé quando eu cheguei lá. Aí ele me olhou dentro dos olhos, eu notei a excitação que ele ficou quando sacou realmente porque eu tava ali. Senti aquele calafrio na barriga, enquanto fechava a porta.


Cheguei perto e coloquei as mãos no peito dele, até que, de repente, como se tivesse acordado com um susto, cara, ele me jogou sobre o seu sofá-cama, de barriga para cima, levantou minha saia de seda, que você viu na festa, abriu minhas coxas e arrancou com força minha calcinha – preta de renda - e começou a me lamber com a cabeça entre as minhas coxas.


- Dedé, muito foda, amiga, conta mais.

- Ele fez daquele jeito até eu ficar totalmente doida, e gozar. Não deu para evitar. Ele sacou pelos meus gemidos, fiquei até bolada. Aí, ele se levantou, tirou as calças e de pé começou a transar feito um louco, sem parar, até me fazer chegar lá, mais duas vezes, duuas amiga... E só parou junto comigo, essa última vez.


Emy, cara, quando ele acabou, eu me levantei rapidamente e fui embora, não teve nem até logo, desci direto pelo elevador dos fundos, ainda zonza e fui pra casa. Quando me deitei, o ‘maridinho’ me acarinhou sonolento e perguntou: fez muito sucesso na festa, princesa gostosa?


Ele não podia nem imaginar a loucura que eu fiz, e ainda por cima o Almir tinha rasgado aquela calcinha que ele adora. Arrancou e jogou aí no chão do seu quarto. Tomara que aqui em casa essa calcinha seja esquecida”.


Lembro que pela manhã, antes de sair, ela me beijou apaixonadamente, como sempre!

Na verdade, eu só aceitei ouvir a fita quando Thiago me entregou aquela calcinha de renda preta, que eu gostava que Dedé usasse com ligas, também pretas, um de meus fetiches prediletos. A calcinha estava rasgada, vestígio daquela noite. Parece que Tiago a encontrou jogada no quarto da Emy, depois que o Almir saiu de lá.


Até hoje eu não paro de ler e reler esse trecho da transcrição, e dessa forma masoquista, continuo buscando uma deixa, uma pista.

Lembranças dos antecedentes, em Olinda sexta feira de carnaval, 08/02. Revelações colhidas em 23/03.

No início daquela noite, Dedé estava especialmente linda. O carnaval era sua vida e já na sexta-feira ela começava a se preparar para o desfile da Mangueira, onde era rainha da bateria, rainha de toda Avenida, na verdade.


Não dessa vez!


Parecia não pensar no desfile. Chegou para selecionar os bonecos gigantes, a fantasia típica que vestem os foliões no carnaval de Olinda, e mostrava seu sorriso largo, sua pele dourada, lisa quase brilhante em harmonia com as formas bem definidas de suas coxas firmes, as nádegas pronunciadas, os seios insinuantes. Ria com aquela gargalhada franca, sonora, marca registrada de sua beleza bem humorada.


Desde que chegamos, parecia aliviada e isso me confundiu ainda mais. Apesar de tudo, sua presença sensual e encantadora me arrebatou.

Ela disse que me encontraria na Praça com as amigas, já na festa, no Bloco do Rei Sueco. Eu fiquei ainda mais corroído pelo ciúme e dominado por um ódio profundo. Eu acabara de saber, por Thiago, que Almir estava em Olinda.


Estava claro quem ia ser esse rei.


Não, eu não suportava mais aquilo e precisava pôr fim a tudo isso.

Depois, lembro apenas quando já passava um pouco das 11 e meia e me debrucei no alto da colina, sob o céu estrelado e pude sentir a brisa morna e constante que me esvoaçava os cabelos naquele verão nordestino. Vislumbrei as palmeiras à beira-mar, os recifes, as margens do Capibaribe em um extremo e as do Beberibe no outro. Todo aquele espetáculo pausou brevemente minha tensão, minha confusão mental. Naquele momento sentia-me como se carregasse um grito interior sufocado, meu pensamento uma tela borrada, uma partitura dissonante, o corpo numa espécie de letargia provocada por uma dose de curare.


Em câmera lenta voltei meu olhar para a praça e pouco a pouco me dei conta de que a festa havia chegado e já era dona das ruas.

O carnaval tudo invadia! Parecia um caldeirão, fervendo alegria, salpicava folclore, reduzia-se no frevo, servia-se na bandeja daquela arquitetura colonial e compunha uma atmosfera particularíssima. Podia sentir a proximidade daquele ritmo quase me tocando como uma mulher sensual que chega provocante, acariciando meus ouvidos, envolvendo meu corpo e ocupando meu pensamento. Mas não consegui aplacar o meu caos interior.

A tragédia em Olinda – (minutos depois, após pequena interrupção do relato).

(Os blocos carnavalescos desciam a Rua do Amparo até a Praça dos Quatro Cantos.

Blocos e mascarados, bonecos gigantes vestidos sobre o dorso, e os carros alegóricos. O desfile seguia rua acima e rua abaixo.

Sentia-me um náufrago flutuando dentro daquele mar de folia com suas ondas de carnavalescos dançando e pulando ao som das melodias e da percussão. Em ritmo de frevo, Olinda, à minha volta, incendiava!

Logo depois, quase ao meu lado vi o “Lorde de Olinda”, com seu smoking, e depois o “Homem da meia-noite”. Um pouco à frente, um “boneco gigante” de uma rainha. Mecanicamente a imagem se paralisou como num freese de cinema e o meu zoom se fechou sobre outro boneco. Reconheci o Rei sueco.

Subitamente, ecoou aquele estalido, forte, seco e o rei tombou.

Abriu-se um círculo em meio à praça de

festa. Todos os olhos se voltaram para o

chão de paralelepípedos que refletia a lua

cheia, em cor de prata.

Esparramado sobre as pedras pálidas, um corpo sangrava ferido mortalmente.

Reflexões expressadas sob profunda depressão (em 23-03, depois da meia noite).

Sim, eu atirei no Rei, em meio à multidão, para acabar com ele, para terminar meu pesadelo. A única coisa que importa é que sou um assassino e por isso eu a perdi para sempre, não me interessa nem um pouco se, de fato, ela foi ou não fiel. Agora, isso não tem importância nenhuma e é provável que nunca tivesse tido mesmo. Tiago talvez tenha sido apenas uma metáfora, um diálogo interno da minha própria insegurança que insistia em me abater.


Eu matei! Cometi um trágico equívoco, fui vítima irrecorrível do meu destino de minha própria loucura.

Eu não podia imaginar que Dedé vestia o boneco do Rei e não da Rainha naquele maldito bloco, na noite fatídica.


Emy era a Rainha.

Almir, ... estava no Rio, com sua namorada, no Baile do “Copa”, agora sei.


Finalmente, começo a compreender o sentido encarcerado dessa tragédia que, de alguma forma, está também contido, sob diferentes perspectivas, na lenda de Vênus, Vulcano e Marte, em “Helena de Tróia”, em “Camelot”, em “Tristão e Isolda”, bem como no “Cinthio”, que inspirou o mestre e surge revisitado em Ana Karenina e Mme Bovary.


Todos nós, talvez, sejamos nada mais que arquétipos, personagens de um inconsciente coletivo, pairando, desde a Grécia Antiga, aos tempos Elisabetanos, e até hoje, na busca sempre renovada por um autor.)


Relatório da manhã do dia 24/03, às 7,30.


“Encontrei seu corpo inerte. Parecia dormir...”


 

HÉLIO PAULO FERRAZ e advogado e escritor bissexto.

Foi Presidente do Sindicato Nacional da Indª de Const. Reparo Naval e Offshore (1992-1998)

COB e Presidente do Estaleiro Mauá – (1985-1998)

Secretário de Estado, do Rio de Janeiro, de Minas e Energia (1986)

Presidente do Flamengo – 2002 a 2003

Atualmente:

2º Vice Presidente da Associação Comercial do RJ

Membro do Conselho de Administração da LIGHT S.A.

Administrador Judicial no TJRJ – administra 4 Falências



Em Cinema e Teatro atuou como produtor nos seguintes projetos:

Eu sei q vou te amar A Jabor (fernadinha ganhou melhor atriz em Cannes)

Os Sete Gatinhos e Rio Babilônia - Neville D’Almeida

Jango e Anos JK Silvio Tendler

Chuvas de Verao - Cáca Diegues

Gabriela - Bruno Barreto (Mastroiani e Sonia Brraga)

For All - Buza Ferraz e Bigode


No Teatro o Teatro Novo produziu

Hair e Beijo no Asfalto, com Buza Ferraz


 


A partir de R$ 25.


 

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Editado pela Cedro Rosa.

 

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