Conto / EDGAR


Era um anjo o Edgar. Faltavam-lhe, se tanto, as asinhas com as quais a arte convencionou adorná-los. Mas era mesmo um anjo.


Morador solitário do 614 de um daqueles prédios com trocentos apartamentos por andar numa transversal de Copacabana, tinha história surpreendente e desconhecida dos vizinhos. Travestis, velhinhas, meninas de vida difícil (e tida como fácil pela conservadora maioria), estudantes de fora da cidade, um ou outro solteirão como ele, enfim, a vizinhança não fazia ideia do que se passava com o Edgar, mas todos sabiam quão prestativo e solícito era o morador.


Quarenta anos, nem feio nem bonito, nem gordo nem magro, nem alto nem baixo, de poucas palavras e sorriso farto com quem encontrasse nos corredores ou elevadores. Disponibilidade constante, mesmo em horas impróprias, pra resolver pequenos problemas da gente do prédio. Nunca falta aquela xícara de açúcar, a ferramenta certa. Mas os encontros eram poucos. Saía cedo e voltava com a noite já bem estabelecida, por volta das nove. Nenhuma grande particularidade, nenhum sinal de torcida apaixonada por clube, nenhum sinal da origem familiar. Admirava, mas não falava a respeito, as grandes escolas de samba e o espetáculo que elas protagonizavam no Rio. Achava aquilo um milagre, desde os tempos de menino no interior.



 

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