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CARMINHA, um conto erótico.

Helio Ferraz, para Criativos - CR Zine.


“Se Whitman a cantou – observei – é porque a desejava e não aconteceu. O poema ganha se adivinhamos que é a manifestação de um anseio, não a história de um fato.”

( Jorge Luiz Borges)

Sexta Feira – 14,45 hs

Na primeira vez em que a vi, meu olhar logo se deteve sobre seu abdômen descoberto cor de chocolate com aquele veio de pelos, mais largo acima de sua calça e afilando-se em direção ao umbigo. Senti um frio no estômago e um súbito despertar dos sentidos. Foi como um flash fotográfico ou um repentino slow motion de cinema, tendo como fundo musical, não por acaso, a “Habanera”(#). Levantei a vista que passou rapidamente pelos seios cobertos com o bustier em paetês prateados antes de chegar, já atordoado, ao seu olhar matreiro, dengoso, bem situado no rosto de traços delicados, uma furtiva e percetível presença do sangue português, que não chegava a descaracterizar o traço racial, marcadamente afro, nesse blend que excitava toda minha libido e passava a ocupar a totalidade do meu pensamento, não sei se por instantes ou alguns minutos. Logo depois, notei o traseiro empinado, com toda aquela bonança sem desperdício e seu andar insinuante. Maravilhosa, ademais de uma delicada insegurança, por assim dizer... “fulô”, brasileira e com “alguma coisa além da beleza, um molejo de amor machucado...”.

Quando recobrei a percepção do mundo ao meu redor, compreendi que precisava rapidamente organizar a abordagem a essa Vênus Macunaíma, imperfeita, real, que cumpria seu destino mitológico, tropical, miscigenado, fonte de prazer e de perdição de alma, que desafiava o estigma de não haver pecado do lado de baixo do equador.

“... você pode me chamar de Carminha...”.

(#) Ária da Ópera Carmem de Bizet

Depois, a memória só consegue lembrar do calor de seus beijos, da textura de seus lábios carnudos, do contato macio com sua língua cálida com sabor de malte; bem assim: o doce-amargo bouquet nos meus dedos, logo após acariciar felinamente seu púbis, úmido e quente de pentelhos fartos e fortes, como sugeria sua pele.

Com o rosto enfiado entre suas pernas lambi-a freneticamente. De forma sôfrega, via-me dominado pela vontade de entrar-lhe corpo adentro, entre suas convidativas virilhas e coxas escancaradas à minha frente, o acesso ao interior de seu corpo entregava-se com volúpia, prenunciando-me o contato com seu âmago, sua alma. Descobria-me enlouquecido pelo desejo de enfiar meu rosto e eu inteiro ali... depois novamente ... entrar-lhe o corpo como parte contingente de mim mesmo, tê-la inteira, toda, ... desvairado, inteiramente desatinado pela força do desejo. De repente, ela sentava em cima do meu corpo com as pernas apertando minha bacia, subindo e descendo, subindo e descendo, subindo e descendo enquanto beijava minha boca, a língua macia, quente. Subia e descia enquanto minha mão se esfregava entre aquelas coxas, e colhia o cheiro e o gosto de sexo vivo para esfregá-lo em meu nariz, fonte primária de todo aquele prazer doído, alucinado, desenfreado. Com todos os meus sentidos revoltos, disse-lhe ao ouvido: Carminha, minha puta, gostoosa, galinha tesuda, quero fuder essa buceta pentelhuda e cheirosa, eu gosto mesmo é de puta, feito você, Carminha, safada, fudedeira que gosta de caralho. Repeti uma vez e outra vez, com a respiração ofegante, a alma arrebatada pelo impulso que dominou a minha razão. Perdi a noção de tempo, do espaço e já não distinguia mais o seu sobe e desce, agora frenético. Como cachorro vadio, cheirei o seu cio com aquele cheiro peculiar, enlouquecedor, que invadia meus sentidos enquanto ela continuava a subir e descer, subir e descer, ora lentamente, ora com sofreguidão... até que juntos choramos, soluçamos, gargalhamos loucamente, ultrapassamos o precipício, lançamo-nos ao abismo e gozamos, gozamos com paixão, daquelas que prescindem de palavras - carnal, animal, crua ... Depois adormecemos.

Acordei observando o teto do boudoir, a cama cercada de espelhos que permitiam uma visão, em planos simultâneos, do que acabáramos de viver... “Sem metafísica”, refleti sobre o inesperado, o imprevisto. Senti o pulsar agora relaxado e lento de Carminha, ainda molhada pelo suor e sobre meu peito, até que bateram na porta. Esgotavam-se os 30’ permitidos a cada cliente das Termas.

Sábado 23,30 hs

Atônita por perceber a possibilidade iminente da ruptura de nosso relacionamento, Letícia ainda tentava retomar o discurso racional sobre a verdade, metáfora de seu questionamento de minhas maiores ou menores mentiras amorosas, minha incompreensível e talvez profana forma de ser verdadeiro, inteiro, pois na verdade eu a amava muito, talvez um pouco mais a cada nova conquista de botequim, de uma “bar tender” de um Café do centro da cidade, com lenço na cabeça e que evocava em mim a memória de desejos juvenis, forjados na casa onde cresci, povoada de mucamas que excitavam minha libido com suas pernas de pêlos oxigenados e onde se iniciou minha vida amorosa.

Após debruçar-me sobre a pia para aspirar uma nova carreira brilhando em sua brancura madre- pérola como que pedindo para ser inalada e manter o ritmo louco das palavras que brotavam de minha boca seca e lábios embranquecidos, eu retomava o discurso acelerado, aos borbotões, lúcido e ao mesmo tempo contraditório, sobre o amor e a fidelidade:

“A única verdade que tem importância realmente é a da siririca; ela é a única que conta, na intimidade secreta de seu objeto, e é a exclusiva e inexorável certeza de amor. Eu só acredito na fidelidade da siririca, só ela é importante e real, a fidelidade da masturbação, é a maior de todas e a única verdadeira e só encontra paralelo no beijo na boca apaixonado, revelador, significativo e maior. O amor é linguagem, linguagem do encontro, dos sentimentos, encontro dos desejos, e assim como a poesia, a pintura, e as artes; a sua forma é o seu conteúdo e o seu conteúdo é a sua forma. Homogêneos, mas autônomos. Socorro-me de Aristóteles para dizer: “a essência é aquilo que faz com que uma coisa seja ela mesma e não outra”. Nesse sentido, a essência do amor/paixão é o desejo, o tesão. Desprovido disso, esse amor expressa um significado diverso, o de outra de suas formas, como a amizade....

Falo, assim, do amor absoluto, do amor com a verdade secreta e íntima da masturbação, do beijo na boca ardente, sendo essa a forma como o compreendo em sua plenitude ou ... sei lá! Na verdade, o amor é sempre absoluto sob qualquer forma em que se apresente. Ainda que não se possa compreendê-lo nem explicá-lo, é suficiente nos permitirmos o mergulho arrebatado em seu redemoinho. A paixão não existe para ser explicada, teorizada, mas para ser, como fazem os poetas e amantes, versificada e vivida intensa e simplesmente, como uma dádiva.

Essas metáforas, Letícia, são reveladoras, pois que a verdade é transparente, translúcida e, se inconfessável, até grita.

Segunda feira - 16,30

Sentado em meu carro, aguardei com ansiedade a abertura das Termas para pôr termo a toda expectativa daqueles 3 dias que pareceram intermináveis. Desejava reencontrar Carminha, revê-la, poder dizer tudo que tomava conta de mim desde que a conheci e fizemos amor, a partir de quando meus sentimentos emergiram à flor da pele e assumiram o comando de minha razão, fazendo-a instrumento das emoções, fundamento último de todas as minhas ações. Foram dias revolucionários, pois repassei toda minha vida: Letícia, meus conceitos, preconceitos, rotinas, buscando reconhecer um novo eu, despertado pelo alarme sonoro da paixão e renascido para uma nova vida, reconstruído sobre antigas verdades que até então pareciam definitivas e que agora desmoronavam.

Quando finalmente cheguei à sala de encontros, antes do bar, Carminha, estava ao fundo, recostada e com o olhar perdido. Minha respiração paralisou dentro do peito, meu coração pulsou mais depressa e mais forte. Ela estava maravilhosa, ... sublime, ... provocante. Pensei nas palavras, de que forma dizer que cheguei para buscá-la, para amá-la completamente, começar uma nova vida, ... a dois ... sabia que ela também queria.

Cruzei meu olhar com o seu, senti o calor e a entrega em seus olhos, pedindo amor..., paixão? Com a voz trêmula, balbuciante, disse ... “Carminha”...

Ela respondeu lentamente: “...ham, ... ham, você sabe meu nome, heim? Ahhh, ... já sei, ... você foi aquele gostosinho de sexta-feira, não foi?

F I M


 

( Carminha faz parte de livros de contos em fase de produção)

 

HÉLIO PAULO FERRAZ e advogado e escritor bissexto.

Foi Presidente do Sindicato Nacional da Indª de Const. Reparo Naval e Offshore (1992-1998)

COB e Presidente do Estaleiro Mauá – (1985-1998)

COB do Estaleiro RENAVE – Reparos Navais S.A. (1988-1996)

Presidente da CEC Montagens – Montadora de Módulos e Boias (1985-1996)

Secretário de Estado, do Rio de Janeiro, de Minas e Energia (1986)

Presidente do Flamengo – 2002 a 2003

Atualmente:

2º Vice Presidente da Associação Comercial do RJ

Membro do Conselho de Administração da LIGHT S.A.

Administrador Judicial no TJRJ – administra 4 Falências

Vice Presidente da Área Comercial, CBMA - Câmara Brasileira de Mediação e Arbitragem

Conselheiro (suplente) do CCM – Conselho de Municipal de Contribuintes

Mediador Judicial do TJRJ

Arbitro e Mediador Listado do CBAM - Câmara Brasileira de Arbitragem Marítima

Árbitro e Mediador listado no CBMA – Câmara Brasileira de Arbitragem e Mediação

Mediador listado da Fundação Getúlio Vargas e da Câmara De Comércio Brasil/Portugal;

Integra a Comissão de Direito Desportivo da OAB-RJ

Integra a Comissão Especial de Mediação e Conciliação – OAB Nacional e da OAB RJ

Integra a Comissão de Mediação e Arbitragem do IAB – Instituto dos Advogados do Brasil


Em Cinema e Teatro atuou como produtor nos seguintes projetos:

Eu sei q vou te amar A Jabor (fernadinha ganhou melhor atriz em Cannes)

Os Sete Gatinhos e Rio Babilônia - Neville D’Almeida

Jango e Anos JK Silvio Tendler

Chuvas de Verao - Cáca Diegues

Gabriela - Bruno Barreto (Mastroiani e Sonia Brraga)

For All - Buza Ferraz e Bigode


No Teatro o Teatro Novo produziu

Hair e Beijo no Asfalto, com Buza Ferraz


 

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