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Cangaço



Acordou fora de seu tempo e lugar. Não reconhecia da janela a paisagem de sempre, não entendia a seca nos barrancos e aquele rio enorme lá embaixo. Adormecera na São Paulo de 2022, com o ronco surdo dos motores passando na Marginal Pinheiros, que chegava atenuado pelos vidros duplos ao quarto no 25º andar do apartamento financiado. Mas acordara em algum lugar do passado, longe da metrópole e nas margens de um rio grande, com corredeiras e ladeado por margens secas. As aulas de geografia, que também ficaram em algum lugar do passado levaram a uma distante associação com o Rio São Francisco. Podia ser. E era. O Velho Chico da “integração nacional”, das gaiolas e carrancas, as margens secas denunciando a localização em algum lugar do sertão nordestino. A mente humana faz coisas inacreditáveis, mas não imaginava que isso pudesse acontecer assim. Dormir em São Paulo e acordar no Sertão?? Desde que começara a tomar os remédios, tinha no máximo sentido uma pequena tonteira, um desconforto. Especialmente, quando, como agora, tomava uns uísques na sequência. Mas acordar em outro tempo era muito além do razoável...


Pairava no ar seco e quente uma latência de coisa a acontecer. Uma energia potencial metafísica. Uma sensação de que “vai dar merda”. Ao sair da casinha de sobrado, logo viu que algo importante estava para acontecer. Pouca gente na rua, um sol de rachar, mesmo no que pareciam ser as primeiras horas da manhã. As roupas estranhas que usava, vindas direto de 2022, chamaram a atenção dos poucos transeuntes com quem cruzou. O forte sotaque nordestino não era muito diferente do que se acostumara a ouvir em São Paulo. Encontrou um armazém que vendia roupas de couro, farinha de milho, mantas de carne de sol, sandálias, ferramentas e tudo o que tinha na memória como clichês do Sertão. Entrou, olhou e saiu, observado pelos atentos olhos do vendeiro, que mascava um fumo de rolo.


Ganhou a rua em direção ao rio e foi ultrapassado por um carro de polícia, modelo antigo, mesmo no passado. Na ânsia de descobrir em que ano estava, mas também com fome, subiu as escadas de um sobradinho onde, no alto da porta, se lia “Pensão”. Encontrou um grupo de moças bonitas e cansadas, sobre sofás velhos. Um cheiro bom de café vinha do que parecia ser uma cozinha, mas o local servia outro tipo de coisa, entendeu logo. As moças foram as primeiras a não estranhar as roupas fora de época do forasteiro. Forasteiros eram a especialidade delas. Mas não era o que ele estava procurando. Perguntou a data. Lá de dentro uma voz aguda de mulher gritou que era 27 de julho. Olhou pra ver e a dona, com os olhos envoltos por uma forte sombra azul, causou uma impressão também forte.


- 27 de julho de 1938! Quer mais alguma coisa ou vai continuar querendo só saber o dia? Quem sobe as escadas da Pensão da Eva não tem muito aperreio com o tempo não, moço.

- Eu queria um café. Tá bem cheiroso esse.

As moças riram meio envergonhadas, diante da quase indiferença do viajante esquisito, que queria saber o dia.


Eva, a cafetina da casa, serviu um café pro desconhecido, caprichando na rapadura. O café, meio doce demais, foi bebido com entusiasmo.

- Onde é que eu estou? Que cidade é essa?

A gargalhada de Eva era tão aguda quanto sua voz, daquelas capazes de fazer tilintar os cristais, eventualmente quebrá-los. E foi uma dessas que ela deu ao ouvir a pergunta.

- Você está cercado de piranhas em Piranhas, Alagoas.

A piada não tinha graça, mas Eva e suas meninas riram muito.

- 1938, no sertão de Alagoas... Ok. Era o que eu precisava saber.

Fez menção de pagar o café, mas se deu conta que o dinheiro que teria não faria qualquer sentido naquele contexto. Surpreendeu-se ao enfiar a mão nos bolsos e dar com moedas de mil réis. Eva não aceitou o pagamento. Convidou-o para voltar mais tarde e usufruir dos “serviços” que a casa oferecia.

Desceu as escadas meio tenso. Sabia que era tudo ilusão. Não estava ali. Estava em São Paulo, provavelmente dormindo no colchão novo e com a cabeça no travesseiro “da Nasa” que tinha comprado após assistir a um comercial de televisão. Só não sabia como fazer pra voltar à sua sintonia.


A cidadezinha de Piranhas era bem bonitinha. Situava-se numa barranca do Rio São Francisco e tinha raros pontos planos. Era quase um mosaico de casinhas coloridas quando vista da margem do riozão. Seguiu descendo em direção ao pequeno porto da cidade, mas teve sua atenção despertada por um carro de polícia parado um pouco antes da rampa do cais. Estranho porque era o segundo carro de polícia que via. E era também o segundo carro que via. Nada que lembrasse, nem de muito longe, o futuro automobilístico que ele conhecia tão bem. Mas era muito estranho que os dois únicos carros a circular naquela manhã fossem da polícia. No porto, viu um homem desembarcar de uma canoa que vencia valentemente a corrente do rio. O homem subiu a ladeira também valentemente e foi até o armazém, que ficava pouco acima da pensão da Eva. Nada parecia fugir à normalidade, não fosse a estranha concentração de carros de polícia. Dois. Em 1938, numa cidade daquele tamaninho, isso não fazia sentido.


Não se entusiasmou pelo rio. Bonito, sim, mas as corredeiras tiravam a vontade de se aventurar na água. Subiu de volta, a tempo de ver um policial armado abordar o homem que tinha descido da canoa, e já voltava ao porto com um grande embornal que parecia conter mantimentos. A abordagem não lembrava as que normalmente presenciava em São Paulo. Apesar da espingarda engatilhada, a conversa entre o policial e o canoeiro parecia amistosa. Passou por eles na altura da Pensão. Não pensou duas vezes e subiu. Era quase hora do almoço e o café puro de mais cedo não era suficiente para manter em pé um paulista normalmente faminto de 1,80m. Nem em sonho. Mas não via local onde se pudesse comer. Entrou na pensão e foi novamente recebido por Eva, agora bem vestida e com maquiagem menos espalhafatosa. As meninas não estavam à vista, talvez dormissem. O cheiro que vinha da cozinha agora era de cuscuz e carne de sol. Perguntou a Eva onde serviam refeições por ali. Eva ensaiou outra gargalhada daquelas, mas não a soltou. Apenas perguntou de onde o forasteiro vinha. Ali não havia essas modernidades de “restaurante”. As pessoas comem em casa. Mas uma das meninas tinha saído pra visitar a família sem avisar e ela estava preparando a quantidade de comida de sempre, o que significava um prato a mais. Convidou-o a almoçar.


O convite o pegou desprevenido. Imaginou que poderia haver intenção não declarada naquele gesto, que depois seria “obrigado” a usar os serviços das meninas de Eva. Mas ela tranquilizou o viajante. Não haveria “venda casada”. Ela e suas meninas tinham sido “reservadas” para uma festa da polícia volante, que ocorreria naquela noite, na pensão.


Agora entendia os carros de polícia. A violência urbana, aquela a que ele estava acostumado, não parecia ser um grande problema no pequeno arraial.

Comeu com vontade o prato de cuscuz com carne de sol, ainda um ovo por cima e um pouco de baião de dois que tinha sobrado da véspera, numa panela judiada pelo fogão a querosene.

A festa começaria no início da noite, pouco depois da missa, quando as famílias já tivessem deixado o centro da vila e se refugiado no abrigo de suas casinhas.


Antes das duas da tarde voltou a seu quarto, num sobrado mais acima, onde estranhamente acordara naquele dia. A casa vazia lhe era familiar, mas não sabia como e nem por que razão. Era a sua casa, na ilusão consciente que vivia.


Tomou um comprimido pra dormir, na intenção de acordar em São Paulo e terminar com essa loucura. Não iria nem sair à rua, para não prolongar a ilusão. Apagou em minutos.

Quando acordou, no início da manhã seguinte, muitas horas depois, decepcionou-se muito ao perceber que ainda estava em Piranhas. Mas um movimento frenético de pessoas e carros era ouvido pela janela. Após aliviar a bexiga e lavar o rosto, vestiu-se e desceu à rua.


Muitos carros e caminhões da polícia volante tomavam as ruazinhas do simpático povoado A situação lembrava, guardada a distância no tempo e no espaço, as operações em favelas do Rio e de São Paulo. Desceu em direção ao porto, naquele 28 de julho de 1938, sem subir as escadinhas da casa de Eva. Um aglomerado de gente perto do cais parecia se entusiasmar com alguma coisa. Até as meninas de Eva se misturaram ao povo. Ainda não tinha visto tanta gente junta ali. Perdera, dormindo, o grande evento diário da cidade, a missa das seis, quando a população, praticamente toda, vai à igreja. Não tivera tempo ainda de ir a nenhuma festa... No segundo dia, ficara muito surpreso com aquela multidão e toda aquela polícia. Algo de muito marcante deveria ter acontecido enquanto dormia e aparentemente não tinha sido a festa dos soldados na zona.


No porto, avistou a coisa mais terrível que jamais vira: empilhadas numa escadinha, jaziam onze cabeças, logo descritas como sendo de Lampião e seu bando, mortos de madrugada no outro lado do rio, na Grota do Angico, pelos mesmos soldados que participaram da orgia na pensão. Tinham se escondido lá e o responsável pelos suprimentos deu o serviço à polícia. Tinha sido testemunha ocular da história involuntariamente.


O povo se dividia entre condenar e festejar o ocorrido. O cangaço despertava sentimentos dúbios, mas Lampião era mais herói que bandido, no sentimento popular.

Não lembra de mais nada. Acordou de repente em São Paulo, sem nem mesmo adormecer conscientemente de novo em Piranhas.


Pensa em suspender o remédio.

Ou a bebida.


Rio de Janeiro, julho de 2022.


 

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