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CÚPULA




O Praxedes, um repórter brasileiro - e humano - das primeiras décadas do seculo XXII, foi designado para fazer a impopular cobertura presencial de um inusitado evento mundial, algo abandonado desde a quarta grande pandemia, a de Covid 75, que levou 50% da população do mundo.


A inteligência artificial tinha chegado a tal desenvolvimento, associada ainda aos demais avanços na engenharia genética, robótica, redes neurais sintéticas e engenharia social, que os padrões da representação diplomática haviam sido redesenhados. E era um encontro de cidades do mundo todo, realizado no recém inaugurado Saara ForestResort, numa floresta artificial onde antes havia dunas gigantes do Saara na Mauritânia, a muitos quilômetros de mares e florestas originais. Reuniram-se ali os representantes das diversas regiões metropolitanas e mesmo dos municípios que optaram por representação individual, todos eles, os representantes, construídos em laboratórios para que incorporassem todas as demandas de seus representados e que constituissem, como “pessoas” (nem todos poderiam ser considerados pessoas, numa definição strictu sensu), um mix preciso do padrão étnico da população da área de onde provinham.


Um desavisado do início do século XXI estranharia a representação das grande cidades europeias, que eram formadas por humanoides com características principalmente berberes, bem diferentes do padrão branco/ruivo que os diferenciava do resto do mundo.


O representante de Paris era um elemento cuja principal componente genética era subsaariana. Um negro alto, com a pele um pouco mais clara graças ao pequeno montante de sangue europeu que ainda compunha a população da capital. Os olhos levemente puxados evidenciavam a migração do leste asiático e as vestimentas de padrão árabe não deixavam dúvidas sobre a predominância da religião islâmica...


Esse predomínio foi inclusive o principal determinante para que todos os participantes do evento fossem do sexo masculino, já num momento da humanidade em que as diferenças haviam sido superadas. As religiões, de maneira geral, têm um tempo específico e lento, quase geológico.

O carioca tinha um quê de retrô. Graças ao avanço inexorável do aquecimento global, tinham ressuscitado um antigo protetor solar, a pasta d’água. E ele parecia estar pintado para a guerra, mesmo tendo a pele escura, baseado que era no mítico programa oficial de miscigenação carioca que ocorrera definitivamente depois da metade do século anterior, baseado na evidência de maior resistência dos habitantes dos morros. A unificação da cidade partida tinha ocorrido à força. E sem roupa.


O novaiorquino, agora desterrado e bastante decadente, se considerada a tradição da cidade, tinha um jeito de executivo descolado, mas vivia atrás dos gigantes chineses, em especial Hong Kong, Xangai e Beijing, que tinham sempre algum grande negócio pra propor e que foram, em última análise, os responsáveis por criar todos os representantes de toda parte, ganhando royalties pela simples existência de cada um que participava do evento.


Ushuaia, Helsinki e Reykjavík, que agora tinham três meses badalados como balneários tropicais, mar quentinho e tudo, reuniram-se com Fortaleza e Maceió para um planejamento conjunto de barracas de praia, tecnologia de plantio de coqueiros e receitas com os agora abundantes frutos do mar de águas quentes, depois da extinção definitiva do bacalhau (há cientistas trabalhando fortemente para a recriação do peixe a partir do DNA de restos de lascas encontradas em porões portugueses, mas a salga complicou o processo).


O representante de Itaguaí, lendária cidade do histórico conto “O Alienista”, de Machado de Assis e posteriormente conhecida como a cidade mais violenta do Estado do Rio de Janeiro, tentava explicar como foram superadas as antigas as mazelas e se tronara um paraíso à beira mar para turistas. Dizia ele que tudo começou com a interdição final da rodovia até Angra dos Reis e Parati. Graças à elevação do nível dos mares, a antiga Rodovia Rio-Santos vai somente até Itaguaí, tendo inclusive a água recoberto toda a parte mais baixa da cidade. Foram formadas diversas ilhas e a água atingiu o pé da serra, possibilitando mergulhos diretos das cachoeiras para o mar. Foi só construir uma pequena infraestrutura turística e o milagre se deu.


Aplaudido de pé por outras cidades, ele convocou o representante de cidades de ilhas do Pacífico, que desapareceram e hoje vivem em ilhas de plástico, tecnologia chinesa, provavelmente aquela que interessa ao cara de Nova Iorque. Eles se intessaram muito!

Na atividade cultural da noite houve um debate, com tradução simultânea, entre recriações cyber humanas de Leonardo da Vinci, J. S. Bach, Shakespeare, Noel Rosa, Michael Jackson, Miguel de Cervantes, Mandela e Kurosawa sobre a arte entre os séculos imediatamente anteriores colapso climático. Os debatedores, de carne, osso e chips, seriam encaminhados a universidades dos paises de origem das personalidades.


A superação dos arcaicos modelos econômicos vigentes entre os séculos XVIII e XXI trouxe para a mesa Karl Marx, Adam Smith, Keynes e uma plateia de humanoides tão atentos quanto atônitos com a sequência dos absurdos que se sucederam nas economias e geraram o caos que hoje impera no mundo pós-monetário. E pós-apocaliptico.


O documento final sinaliza para a proibição do sexo com intenção reprodutiva na Ásia, exceto se voltada para o repovoamento dos Estados Unidos, que carece de gente depois que os incêndios a oeste e a elevação do Atlântico a leste acabaram com os litorais do país, eliminando mais de 60% da população que não conseguiu fugir para a África, onde a escravização de brancos tornou-se um problema terrível, especialmente por conta da disponibidade de escravos voluntários.


A carta também recomendava a caça e o abate dos carros autocontrolados, que guiados por inteligência artifcial, como praticamente tudo, investiam contra pessoas e edificações, defendendo sua própria liberdade de ir e vir para onde quisessem, sem predeterminações abusivas. O mesmo ocorria com os aviões e barcos, de modo que o transporte só se dava através de modelos antigos, passíveis de controle.


Na saída de um dos pavilhões, onde ocorria uma simulação da Segunda Guerra Mundial, com a materialização de alguns de seus principais personagens , inclusive Stalin, Roosevelt, De Gaulle, Mussolini e Hitler, o Praxedes foi abordado por um humanoide com braçadeira da SS, acompanhado do seu cão robô voador, que ouviu e processou o xingamento que Praxedes havia feito mentalmente ao líder alemão...


Praxedes acordou suado e ligou o notebook. Era julho de 2023. Mas essa cobertura de política internacional deixa o cara meio distópico mesmo.


São Paulo, julho de 2023.

 

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