Bichos


Ela não gostava de cobras. A educação cristã do colégio das irmãs a fizera antipatizar de modo irreversível. “A serpente é o símbolo do mal”, pensou imediatamente, quando a jiboia gorda apareceu na porta dos fundos.


A racionalidade desaparece em horas assim. A verdade é que quase ninguém gosta de cobras, mas nem todo mundo pensa no Jardim do Eden. Há outras e variadas razões pra não se ter simpatia por elas, claro. Grande parte delas é venenosa, oferece risco objetivo. A psicologia ainda fala coisas sobre o fato de serem seres rastejantes, há alusões ao formato, às escamas, aos olhos vidrados, à boca, à falta de membros, à temperatura do corpo (isso para aqueles que, normalmente involuntariamente, chegam à intimidade de um toque), enfim, cobra não é um animal simpático, a priori.


Mas dar de cara com aquela jiboia ao sair pra varrer o quintal era mais do que o suportável. Resistira muito a ir morar na borda da floresta. Quando as crianças eram pequenas, num momento de especial sucesso profissional, o marido propôs saírem do apartamento pequeno em Copacabana para uma vida mais próxima à natureza nas bandas do Itanhangá. Os preços praticamente se equivaliam e as crianças teriam espaço para brincar, menos barulho e fumaça. Era mais longe da praia, mas ainda não havia a paranóia da iminência da ocupação dos terrenos vazios no entorno e a violência, que anos depois se tornaria uma chaga em muitas áreas da cidade. Alguns amigos alertaram sobre a ocorrência de animais selvagens, inclusive cobras, mas isso não parecia grave.



 

Loucura de Amor!