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Batem à porta



Pablo não aparece há mais de uma semana. Aconteceu alguma coisa. Pressinto. Com o colapso dos celulares comuns, parece que o mundo desmoronou. Idade da pedra. Não nos conectamos mais. Saudade dos tempos daqueles emojis bobinhos, quando bastava o desenho de uma mãozinha fazendo o sinal de positivo para sabermos que as coisas iam bem. Mas isso já faz muito tempo.


Quando as aves danificaram as torres de telefonia, Pablo passou a vir pessoalmente. Agora sumiu. Penso no pior, mas logo afasto o pensamento ruim com um movimento enérgico de cabeça. Uma sacudidela, como se assim jogasse fora o mau presságio. Como se o mal escapulisse pelos ouvidos. O mundo lá fora está um terror.


Na quinta-feira tem caravana para o supermercado. Faltam dois dias. Não me arrisco a ir sozinha. Impossível fazer isso desde os tempos das grandes sombras. Tenho que comprar leite em pó e outras coisas. Verduras nem pensar. Não existem mais hortas num raio de muitos quilômetros daqui. Todas devastadas. Às vezes penso no quanto nossa geração foi omissa, permitindo que esse mal crescesse até sair do controle. E pensar que em outros tempos repudiávamos pombos e pardais. Bons tempos aqueles em que essas pragas eram o incômodo. Agora os emplumados nobres e coloridos estão por toda parte. Primeiro ocuparam as árvores. Depois passou a ser comum dividirmos as calçadas com canários da terra, sanhaços, viuvinhas. A seguir eles invadiram nossas áreas de serviços e os quintais das casas. Daí foi um pulo para entrarem nas próprias casas, apartamentos. Um horror.



MPB, uma música incomparável. Escute!



Meu pai contava que no tempo do seu avô, quando criança, era comum o uso de traquitanas chamadas alçapões e arapucas para capturar passarinhos. Eles eram presos em gaiolas para que seus cantos fossem apreciados. Era muito comum isso. Assim como também era comum os meninos daquele tempo matarem passarinhos pelo simples prazer de matar. Usavam uma arma caseira, rústica, feita de uma forquilha de madeira e tiras de borracha para arremessar pedras. Estilingues. Atiradeiras. Isso era muito comum e ninguém via nisso algo aviltante. Vivíamos bem. Até que no final do século passado surgiram os conceitos de ecologia, sustentabilidade, politicamente correto e outras bobagens. Até leis foram criadas para proteger essas pragas. Acabaram as arapucas, acabaram os estilingues, jogaram fora as gaiolas.


A sociedade acabou contaminada. Houve até um caso célebre ocorrido há uns cinco anos quando um cidadão foi linchado em praça pública por ter morto acidentalmente uma andorinha. A ave se chocara com os para-brisas do carro. A turba amarrou o motorista a um poste e o trucidou a pancadas. Até foice usaram. Coitado. A polícia só chegou para recolher os pedaços do pobre espalhados na via pública. Agora estamos vendo aonde isso veio dar.


Eles estão em toda parte. De todos os tamanhos, de todas as cores, com cantos variados. São carcarás, bacuraus, tucanos, pica-paus, gaviões e mais uma infinidade de pássaros menores invadindo tudo que é espaço. Bicando tudo. E são bicos afiadíssimos. Atacam invariavelmente nos olhos dos descuidados como foi com a minha vizinha, dona Tereza, que bancando a poderosa se arriscou a ir ao supermercado, sozinha. Acho que foram sabiás de peito amarelo junto com outras espécies. Sei que tinha sabiá. Arrancaram os olhos da coitada que saiu a gritar correndo em zigue-zague, o sangue esguichando dos buracos dos olhos, até que caiu na calçada. Ninguém para socorrer. Morreu lentamente.


E isso sem falar nas moléstias e febres de todos os tipos adquiridas pelo contato com os piolhos dessas aves. Eles não têm predadores. Nós éramos os predadores. Houve o desequilíbrio. Eles voam em enormes bandos. As revoadas cresceram tanto que certa tarde de sol ainda alto, a cidade escureceu. Foi a primeira grande sombra que se deitou sobre os edifícios. Uma sombra formada pela imensa e densa revoada, que chegou a encobrir a luz do sol. Imagine isso. Foi a primeira. Elas se sucederam com o tempo e as pessoas se trancaram em suas casas e apartamentos.


A Força Nacional de Segurança, junto com os Bombeiros e as Polícias, Civil e Militar, fazem a escolta de trabalhadores às fábricas e ao comércio. Foi o primeiro decreto presidencial para tempos especiais, atropelando a Constituição. Os comboios, por vezes, também dão cobertura às caravanas de moradores para irem aos supermercados. A escala em nosso bairro é feita por quadras. Vejo na Internet que em outros locais também é assim. As ruas estão praticamente desertas. Poucas escolas ainda têm aulas presenciais. A maioria é de cursos a distancia. Dá medo andar lá fora. O pior é que não há perspectiva de melhora. Não sabemos o que a ONU pensa dessa situação. E a vida fica cada vez mais perigosa.


MPB no Youtube.


Com o tempo, as pestes absorveram novos costumes. Algumas espécies se adaptaram à noite. Passaram a invadir as casas com mais frequência. Procuram o que comer. Sua voracidade parece insaciável. Sem predadores, estão em quantidade muito além da oferta de alimentos. Um especialista explicou na TV que essa carência seria a causa de alguns desses emplumados estarem mudando de hábitos alimentares. Alguns se tornando carnívoros. Hoje não são apenas os olhos os objetivos desses pequenos monstros quando atacam algum humano. O caso do aposentado da Rua Donald Trump é emblemático.

Assisti na TV que ele morava com uma sobrinha, mas naquele momento estava sozinho em casa. E ele abriu a porta. Certamente ouvira batidas e imaginara ser a menina voltando do trabalho. Eles já sabem dissimular, iludir. Entraram. Centenas deles. Talvez milhares. O homem foi encontrado sem os olhos e com parte do esqueleto à mostra. Quase uma caveira prostrada na cadeira de rodas.


Quando me lembro do caso confiro a fechadura da porta. As casas têm que estar fechadas. Herméticas. Uma janela mal fechada, um descuido qualquer e ocorre a invasão mortal. E eu que me arrepio só de ouvir o farfalhar das asas passando junto à janela?! É espantoso. Sinto o sangue congelar nas veias. Um calafrio percorre o corpo num choque. O farfalhar das asas. Milhares, milhões de asas. Eu não abro a porta para ninguém. O mundo lá fora está apavorante. E pensar que um dia o homem invejou os pássaros porque estes podiam voar. Hoje os pássaros viraram homens. Que ironia.


E que ruído será esse agora na porta? Apenas uma impressão? Pânico? Andamos assustados. Ouvindo coisas.

O que será isso? Estão batendo à porta. Cruzes!! Seriam pica-paus? Não. Não. O som é de nós de dedos batendo na madeira.


- É você, Pablo?! É você?... Pablo... Pablo?



Conto do livro: Chico Buarque no olho mágico


 

A Dança da Porta-Bandeira, de Evandro Lima e Lais Amaral Jr.



MPB




 

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