Batem à porta



Pablo não aparece há mais de uma semana. Aconteceu alguma coisa. Pressinto. Com o colapso dos celulares comuns, parece que o mundo desmoronou. Idade da pedra. Não nos conectamos mais. Saudade dos tempos daqueles emojis bobinhos, quando bastava o desenho de uma mãozinha fazendo o sinal de positivo para sabermos que as coisas iam bem. Mas isso já faz muito tempo.


Quando as aves danificaram as torres de telefonia, Pablo passou a vir pessoalmente. Agora sumiu. Penso no pior, mas logo afasto o pensamento ruim com um movimento enérgico de cabeça. Uma sacudidela, como se assim jogasse fora o mau presságio. Como se o mal escapulisse pelos ouvidos. O mundo lá fora está um terror.


Na quinta-feira tem caravana para o supermercado. Faltam dois dias. Não me arrisco a ir sozinha. Impossível fazer isso desde os tempos das grandes sombras. Tenho que comprar leite em pó e outras coisas. Verduras nem pensar. Não existem mais hortas num raio de muitos quilômetros daqui. Todas devastadas. Às vezes penso no quanto nossa geração foi omissa, permitindo que esse mal crescesse até sair do controle. E pensar que em outros tempos repudiávamos pombos e pardais. Bons tempos aqueles em que essas pragas e