BALANÇANDO



Lembrava vagamente das aventuras do dia anterior. Uma mistura estimulante de samba, deslocamentos pela cidade, lugares diferentes, motel suspeito, boa companhia, boa comida, sustos e carinhos.


Tanta coisa que, ao abrir os olhos, estranhou que estivesse em casa, sozinha. O gato arranhava a porta por fora, com a habitual ansiedade. Uma conferida no relógio e a constatação de que o sábado já ia alto, quase entrando pela tarde. A quantidade de coisas acontecidas desde a saída do escritório no final da tarde de sexta parecia maior que tudo o que já se passara desde o início da pandemia, daquela vida terrível de home office e reuniões pelo Zoom.


O retorno ao escritório tinha sido meio melancólico. A pandemia fez estragos na equipe, perderam dois queridos para o vírus e uns três para a economia, que os obrigou aos famigerados cortes de custos, implacáveis e cruéis. Máscara, álcool em gel, distanciamento, duas doses de vacina, enfim, o pacote completo e o retorno sofrido, sem as brincadeiras de antes, sem os sorrisos abertos, sem as piadas de sempre. Mas aí veio dezembro.