Arlindo Cruz, um vento de poesia no Samba



Como narrado na semana passada, eu e (Luiz Carlos) Firmo retornamos do Rio em estado de graça, depois de termos sido recebidos por Arlindo Cruz em sua casa, no bairro da Piedade. A noitada de samba e pagode no ‘Varandão’, seria mesmo abrilhantada pelo sambista. E o nome de Arlindo passou a ser assunto constante na programação da Rádio Resende durante os dias que antecederam o show. A expectativa revolveu o mundo do samba na cidade.


E enfim chegou o dia do badalado evento. O ‘Varandão’, hoje ‘Celeiro’, restaurante e casa de espetáculos, está localizado no bairro Manejo e já naquele tempo era um respeitado endereço da vida noturna resendense. Firmo me incumbiu de receber e fazer as honras ao Arlindo enquanto ele cumpria seu horário noturno como operador de áudio num programa da emissora. Terminado o programa ele estaria livre e seguiria para abrir a noitada de samba.


Como tinha que passar o tempo, levei Arlindo para a ‘Cantina Portuguesa’, um bar que não existe mais e era a cara dos botecos do Rio. Ficava em Campos Elíseos, perto da Rádio Resende, em frente ao ‘Rei dos Salgadinhos’. Tomamos umas cervejas e conversamos coisas da vida e do samba. Eu fazendo o maior esforço para não demonstrar vestígios de tietagem. De repente um sujeito, ao reconhecer o sambista, se aproximou e foi colocando as mãos no peito do homem, tocando nas suas portentosas guias que saltavam da camisa. Arlindo, expressão fechada, afastou o cidadão com as mãos dizendo “por favor, não toque aqui” (nas guias do santo).


 

Escuta essa!

 

Mas tratou o fã na boa. Sem arrogância. É que se sentira invadido pela displicência e pouca consideração daquele admirador para com a sua fé. Logo depois o Firmo chegou e seguimos para o ‘Varandão’. E a noite confirmou todas as expetativas. Foi um show daqueles.


O prestígio de Luís Carlos Firmo como alguém do mundo do samba chegou às grimpas. E o prestígio dele junto a Arlindo Cruz também fora encorpado. Tanto que meses depois Arlindo voltaria a Resende para um festival de grupos de samba e pagode que Firmo realizaria no Centro Cultural Recreativo Resendenses, o CCRR. Foi num domingo à tarde. Mais um evento de encher as medidas e sacudir o mundo do samba em Resende.


Tempos depois, Firmo me honraria com o convite para ser seu padrinho de casamento. A cerimônia, se não me engano, foi num sábado à tarde. Um marcante acontecimento num local chamado ‘Fundo de Quintal’. Nada mais apropriado vocês hão de concordar. Meu saudoso amigo nos deixou prematuramente devido a complicações renais. Mas está na história de Resende. Quem gosta de samba e lembrar das vindas do grande Arlindo Cruz à cidade, vai imediatamente relembrar o bem humorado, alegre e determinado Luís Carlos Felipe Firmo.