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A matança num não-país das maravilhas


Lais Amaral Jr.

Me postei diante da tela branca do note book para escrever meu texto semanal da Criativos. Seria algo sobre o Clube da Esquina, da despedida de Milton Nascimento e coisas afim. Um artigo com jeitão de crônica, como eu gosto, com algum humor na garupa. Então chegou a notícia da postagem do André Trigueiro no Twitter sobre o desfecho do escabroso caso do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Philips, na Amazônia. Aí o astral baixou, para um nível mais baixo do que já estava. Impossível teclar sobre outra coisa que não tenha ligação com esse estado de espírito que está, com certeza, solapando a alma das pessoas ainda sensíveis. O Clube da Esquina, com toda a sua beleza, poesia e importância, fica pra semana que vem.


A notícia oficial da morte dos dois ainda não havia sido confirmada oficialmente. A postagem do Trigueiro se baseara em palavras da “viúva” de Dom Philips. O tempo passou e as notícias foram desencontradas e quando voltei ao texto, não havia certeza que os corpos foram encontrados. O que não muda em nada no geral, a nossa percepção sobre o desfecho do caso. E não muda em nada a realidade assustadora porque passa a Amazônia onde o crime organizado com o tráfico de drogas, milícias, garimpeiros e madeireiros ilegais contam com apoio governamental, seja distribuindo títulos de propriedade a grileiros, seja fazendo vista grossa e cúmplice com as barbaridades perpetradas, como contra os indígenas em suas terras. Sem falar do Ministério do Meio Ambiente que não está nem aí para o meio ambiente e até sugeriu “passar a boiada”, lembram? A Funai não defende os povos originários. O indigenista desaparecido Bruno Pereira era funcionário da Funai e foi demitido pelo então Ministro da Justiça, Sérgio Moro, essa celebridade abjeta forjada nesses tempos inacreditáveis de construção de um não-país.


Em entrevista coletiva recente, o jornalista Dom Philips indagou ao inominável como ele pretendia defender a floresta amazônica. A resposta destemperada e indigna de um chefe de nação minimamente civilizado foi que a Amazônia não pertencia a eles, que é nossa e que eles não tinham que se meter. E complementou com aqueles clichês habituais. Grosserias à parte, o inominável não tem a noção (noção?), que no mundo atual, quando as mudanças climáticas já são temas prioritários em muitos gabinetes governamentais, o sentido de propriedade mudou e que a floresta amazônica pertence realmente ao planeta Terra e não somente ao Brasil. Afirmar que os chamados civilizados destruíram seus ecossistemas e que portanto não tem que se meter com nossa floresta, não justifica se render à sanha e à ganancia daqueles que só pensam em extrair as riquezas da floresta, sejam minerais, vegetais ou animais. A riqueza maior hoje, é a oportunidade da manutenção da vida humana na Terra, o que a floresta amazônica ajuda a proporcionar.


Lembro que no início do atual desgoverno, quando se começou a construir esse nosso não-país, foram desfeitos os acordos de colaboração que algumas nações europeias mantinham, enviando recursos para ajudar na preservação da floresta. Alemanha, Noruega e outros foram impedidos de colaborar porque, na visão dos atuais “governantes”, esses países estariam querendo dominar a Amazônia. Outro dia ouvi do Carlos Minc, que quando foi ministro do meio ambiente consolidou esses acordos, que a Noruega temendo que o aquecimento global um dia venha provocar um grande degelo da Groenlândia, resolveu ajudar na preservação da floresta amazônica. A Noruega fica abaixo da Groenlândia e um grande degelo desse país geraria uma situação catastrófica. A floresta amazônica é um dos fatores fundamentais no equilíbrio térmico do planeta. Por isso o desmatamento recorde, seja pela ampliação das fronteiras do agronegócio, seja pelo garimpo e pela ação assassina de madeireiros ilegais, preocupa tanto o mundo.


Eu sou um cara que acredita naquela expressão de que o riso pode ampliar nossa existência. Mas está difícil evitar o incômodo e a tristeza que esse enorme manto de amargura que hoje paira sobre nosso país, nos faz sentir. Como rir quando sabemos que 33 milhões de brasileiros passam fome? Que as forças de segurança parecem mais preparadas para dizimar jovens, geralmente pobres e pretos? Quando percebemos o quanto esse nosso não-país retrocedeu e como será difícil retomar o caminho para a construção de nossa autonomia e não voltarmos à condição de colônia? Pareço pessimista, mas não sou, garanto. Lá no fundo sempre resiste um vestígio de esperança. Também sem esperança, como viver?


“Cipó caboclo tá subindo na virola Chegou a hora do pinheiro balançar Sentir o cheiro do mato, da imburana Descansar, morrer de sono na sombra da barriguda

De nada vale tanto esforço do meu canto Pra nosso espanto tanta mata haja vão matar Tal mata atlântica e a próxima amazônica Arvoredos seculares impossível replantar (...)

Quem hoje é vivo corre perigo E os inimigos do verde dá sombra ao ar Que se respira e a clorofila Das matas virgens destruídas vão lembrar” (Matança – Xangai/Geraldo Azevedo)


 

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