“A LIÇÃO DO TEMPO”


Tomava um cafezinho no Caruso, sentiu a mão em seu ombro e ouviu: “Lembra de mim?”. Virou-se e viu um rosto envelhecido que o encarava com certa simpatia. Procurou na memória fotográfica, mas não conseguiu associá-lo a algum amigo ou conhecido no passado, a algum acontecimento recente. O outro, sentindo seu desconforto, quis ajudar: “Carlão, o Carlão da República”.


Buscou novamente auxílio na memória e encontrou, uns sessenta anos atrás, escondido num cantinho, já que não tinha mais nenhuma importância, o terror das brigas de turma, o namorado daquela menina que “passou cheia de graça” e de cujo nome não se lembrava mais. O idoso estendeu sua mão num gesto de cordialidade contrapondo aquela que há muitos anos o ameaçou com uma porrada.


As duas turmas se encaravam separadas por metro e meio. Uns quinze de cada lado. Os mais fortes na frente, os franzinos, atrás. Estes, os que mais xingavam e desafiavam os oponentes: ”Podem vir! Não são de nada! Vão levar porrada!”. Geralmente é assim: os mais fracos são os mais folgados. Brigas de turma sempre houve em Copacabana pelas mais variadas razões. Alguém vê o que não devia e conta o que não devia para quem não devia.


 

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