A aranha


Faz algum tempo uma coisa estranha se alojou no velho baú aos pés da minha cama. Alguma coisa, viva. Tenho certeza. Percebo o ruído do arranhar as paredes internas do baú. Não sei como aquilo, uma enorme aranha ou sei lá o que é, chegou ao meu quarto. Por onde entrou? Não consigo achar a resposta. O fato é que nas noites seguintes evitei me aproximar do baú. Passei a dormir na sala. Com a TV ligada. Temia ouvir os sons que denunciassem alguma ação como um arrumar de tralhas num... Ninho.


Não bastassem os problemas do dia a dia no escritório, a ex-mulher infernizando, os filhos perdidos na vida, tinha agora essa incômoda e perturbadora visita dentro do próprio quarto. Nunca me senti tão vulnerável. Tão desprotegido na vida. Há tempos me esquivo de Rita que quer resolver questões pendentes de um divórcio demorado e doloroso. Sabendo que o final da pendenga resultará em perdas materiais. Emocionalmente não há mais o que perder. Ainda mais agora com a chegada desse bicho. ‘Esse’, sei lá o quê.


Decidi que não vai haver confronto. Nem aranha e nem Rita, que vive ligando para o escritório, passando MSN, Whatsapp. Forçando um encontro. Igual aos tempos de namoro e dos primeiros anos de casados quando queria discutir a relação. Nunca foi o meu forte. Sempre evitei.


 


Escute LOUCURA DE AMOR, de Tuninho Galante e Marceu Vieira.