top of page

A África não é a Bahia² - parte I


foto: Lucia Capanema, em Maputo, Moçambique_junho 2023

Deixem-me começar esta pequena série de relatos pela conclusão, sem a menor ideia se esta atitude vai aguçar ou desmantelar a curiosidade dos leitores. A África não é a Bahia ao quadrado – não. A África é um soco na cara, nua e crua, muito mais que sempre desejei pra mim, mas agora desejo a cada um que me ler. E que não ler.


Dizia Milton Santos que devemos entender o “funcionamento dos funcionamentos”. Ao longo destes relatos creio que você entenderá (junto comigo, pois ainda não cheguei lá) que a África revela o funcionamento da humanidade, com todas as suas maquiavelices e suas esperanças depositadas nas religiões. É uma espécie de presente-passado-do-futuro, com todas as camadas do espaço-tempo estampadas como seus tecidos e à mostra como seu sol constante.


Agora permitam-me voltar no tempo. Não 25 dias, quando pousei de volta em Guarulhos, mas 25 anos, quando morava nos Estados Unidos e havia aprendido o que é ser negra e discriminada pela sociedade em que se vive. Talvez por tratar-se de uma condição temporária (já que no Brasil sempre havia sido ‘branca’) talvez por militância, naquela época me senti feliz por não ser parte da hipocrisia estúpida dos anglo-saxões. E me joguei. Foi convivendo no mundo negro que nasceu meu sonho de conhecer a terra mãe. Finalmente, um congresso e muita coragem me colocaram sozinha na rota para Maputo em 2 de junho de 23.


Sobrevoamos Lagos ao amanhecer. Me chamou atenção a proporção de tendas ou barracos contínuos por grandes extensões, com poucas ruas (que pareciam de terra) entrecortando aquele mundo, mesmo junto à costa e ao que pareciam ser o porto, o distrito industrial, o centro e os pequenos oásis em que se avistava de cima afastamentos ajardinados, piscinas e quarteirões menores. Não seria preciso ser urbanista de profissão, como eu, para compreender o que se via. Na longa fila de imigração, só a alegria de ver que ali os pretos não eram preteridos.


Partimos para Maputo em seguida.


A conselho de um sociólogo local, me hospedei no centrão da cidade. Era um domingo e o ambiente esvaziado me lembrou alguma cidade do interior baiano nos tempos do Coroné Toninho Malvadeza: aquela urbanização de segunda, bocas-de-lobo enormes, pequenos montes de poeira e lixo seco escondendo as calçadas e alguns transeuntes sem rumo. Praticamente todos os imóveis públicos e de empresas de médio e grande porte protegidos por guardas particulares ou militares, embora sem nenhuma ameaça aparente. Depois perguntei a um guia local se aquilo era devido à memória de guerrilhas recentes, a um militarismo instituído ou a uma espécie de plano de pleno emprego: me apontou as duas primeiras hipóteses, com ênfase no militarismo.


“Ah... Amanhã você vai ver muito movimento, é outra cidade”, alguém me disse. A segunda-feira me revelou um comércio formal muito pobre, de roupas e cortinas a especiarias e artigos religiosos. Fervilhante mesmo era o informal, mais pobre ainda – gente, muita gente, demonstrando suas ofertas sobre panos estendidos nas calçadas, outros trabalhando no cozer, no cozinhar, ou no separar as calças de camisas e de meias – tudo por faixa etária e gênero. Mais gente para ofertar do que para comprar, o que, inevitavelmente, jogava os pedestres para a via, já caótica com tantos ônibus de todas as estampas e mensagens. Não, não estou falando em transporte público – estou falando em ônibus particulares, cada um com o graffiti de preferência do proprietário, eu supus. Todos semidestruídos pelo tempo. Talvez já tenham chegado ao país com 40 anos de uso, como ocorre com os aviões importados.


À medida que se sobe em direção à sede dos poderes a infraestrutura vai melhorando: Em frente ao Parlamento está, grandioso, Samora Machel em meio a uma grande rotatória muito limpa e vazia, quase asséptica, enquanto lá embaixo sua segunda esposa Josina Machel nomeia a paupérrima via que cruza a Avenida Karl Marx, aqui também paupérrimo. A pequena colina atrás do Parlamento leva à cidade alta, em grande semelhança com nossa Salvador. Mas assim como a burguesia branca é minoria, ‘sua’ exclusividade é pequena, pode ser atravessada a pé em 30 minutos. Isso não lhe tira os ares europeus, o luxo de algumas edificações de arquitetura clássica, a presença de áreas verdes bem cuidadas. Elegância em meio a muitos seguranças. Ali fervilham à noite belos bares, restôs, e o Núcleo da Arte – centro de produção de artes plásticas, música e de resistência ao colonialismo, onde se encontram, finalmente, pretos e brancos.


Poderia parar aqui, não fosse a Fortaleza de Maputo. Onde se espera encontrar a memória colonial e escravocrata contada através das lentes revolucionárias da independência, se vê muitas armas e heróis portugueses. Duas grandes placas de bronze em baixo relevo revelam cenas de 1895 e 1897: na primeira, o subjugo de Ngungunhane, imperador de Gaza, humilhado ao lado de suas mulheres pelo exército português em fardas assustadoramente contemporâneas. Na segunda, a captura de dois negros originários seminus, um morto no chão e outro amarrado; à sua volta a cavalaria e o exército português, com suas fardas assustadoramente contemporâneas. Nos pedestais, as legendas esclarecem que os painéis homenageiam o general português vencedor da resistência africana contra a ocupação colonial estrangeira. E só.


Uma espécie de tonteira me acometeu, pontadas na boca do estômago, engulhos. A contemporaneidade das cenas faz reviver sem esforços de imaginação a crueldade e a empáfia que fogem a nós, brasileiros, quando miramos as referências pictóricas de portugueses em 1500. Aquelas cenas caricatas a que estamos acostumados, veludos, plumas, perucas e pós-de-arroz parecem ridicularizar a maldade, a infâmia, a vergonha até o ponto do perdão carnavalesco. Um romantismo à brasileira que naturaliza o genocídio homenageado. Na fortaleza as marcas são frescas e em pleno, absurdo, contraste com a pobreza que criaram.


Um gosto amargo de revolta, asco e dor se mistura ao grito calado de tristeza, com-paixão e admiração.


 

Música de negros no Brasil, artistas Cedro Rosa, em playlist da Spotify.





A Cedro Rosa Digital desempenha um papel fundamental no desenvolvimento e abertura de mercado para a música independente.




Com sua plataforma inovadora, a Cedro Rosa oferece aos artistas independentes a oportunidade de certificar suas obras, garantindo a proteção dos direitos autorais e a legitimidade de suas criações. Isso é essencial para que os artistas tenham segurança e reconhecimento no mercado da música.



Músicas dos artistas da Cedro Rosa em playlist no Youtube.




Além disso, a Cedro Rosa Digital facilita a distribuição e promoção das músicas independentes, conectando artistas a oportunidades globais. Com seu alcance internacional e parcerias estratégicas, a plataforma amplia a visibilidade dos artistas independentes, permitindo que sua música alcance um público mais amplo e diversificado.




Outra grande vantagem da Cedro Rosa Digital é sua abordagem inclusiva e diversificada. A plataforma valoriza a diversidade cultural e musical, oferecendo suporte a artistas de diferentes gêneros, estilos e regiões do mundo. Isso fortalece a cena da música independente, proporcionando oportunidades equitativas e ampliando a representatividade no cenário musical.


0 comentário

Comments


+ Confira também

destaques

Essa Semana

bottom of page