MAU



Ele foi o pior vizinho, o pior inimigo, o pior pai, o pior marido, o chefe mais odioso. Vinha assim desde épocas pretéritas, quando seus pares não tinham ainda obtido o sucesso que têm hoje. Era o cara que cortava a bola dos meninos na rua, o patrão que xingava os funcionários, o marido que batia na mulher, o pai que espancava os filhos (mas levava os meninos ao prostíbulo pra perder a virgindade), o que desmoralizava as filhas (e delas cobrava – por vezes violentamente - a virgindade até o casamento, quando passariam a “pertencer” aos maridos), o machão que mexia com as mulheres na rua, o cara que cuspia nos mendigos. Era ele quem ameaçava quem não era heterossexual, não gostava de pretos, detestava índios. Também não aturava professores, “esses manipuladores de crianças e jovens”. Pobres ele ignorava. “Não deviam existir”, dizia. E, em caso de precisão, estaria à disposição para ajudar a terminar com eles.


Não media esforços – nunca mediu – para eliminar obstáculos, especialmente inimigos ou adversários, de qualquer que fosse seu objetivo da hora. Não ria, não fosse da desgraça alheia. E, claro, ria mais, quanto maior fosse o infortúnio. Não gostava de música, a não ser que fosse pra atazanar vizinhos, impedir que festejassem qualquer coisa, que se ouvissem, que fossem felizes. Nessas horas valia qualquer música, desde que muito alta.

Viajou pouco, mas conheceu uns dois campos de concentração nazistas. “Muito organizados, uma beleza!” Também gostava de Barbacena. Lamentava o fim dos manicômios, dos eletrochoques e dos banhos de água gelada no pátio. Do passado recente, queria mais AI-5, mais censura, mais